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Antifragilidade em tempos de guerra e o novo papel da governança tecnológica

  • Foto do escritor: Rafael Reis
    Rafael Reis
  • 26 de jan.
  • 5 min de leitura

Autor: Rafael Reis



O início de 2026 recolocou a tensão militar no centro do debate internacional. A guerra na Ucrânia permanece sem horizonte claro de estabilização, o Oriente Médio segue marcado por episódios recorrentes de escalada e, na Europa, o aumento dos gastos em defesa e o retorno de discursos ligados à preparação militar passaram a fazer parte do cotidiano político. Ao mesmo tempo, declarações sobre a possibilidade de disputas em torno da Groenlândia evidenciaram que até regiões historicamente alheias à lógica de conflito passaram a integrar o cálculo estratégico das grandes potências.


Esse quadro não se caracteriza, como alguns especialistas apontam, pela iminência de uma guerra total, mas evidencia que vivemos em uma dinâmica permanente de tensão. Encontros frequentes entre forças militares, exercícios em zonas sensíveis e a retórica extremista de líderes internacionais ampliam a probabilidade de incidentes capazes de produzir efeitos sistêmicos em escala mundial.


É nesse contexto que a próxima grande ruptura estrutural dificilmente chegará de forma inesperada. Diferentemente da pandemia, que expôs de maneira surpreendente a fragilidade das cadeias produtivas e dos modelos tradicionais de governança corporativa, o cenário atual é marcado por riscos amplamente conhecidos e reiteradamente sinalizados. Conflitos armados regionais, disputas tecnológicas entre potências, sanções econômicas e fragmentação regulatória deixaram de ser exceções para se tornarem componentes estruturais de um panorama internacional instável.


No setor de tecnologia, a escalada das tensões geoestratégicas ainda se reflete de forma limitada nas estruturas de gestão de risco e governança das organizações. É comum encontrar arranjos institucionais nos quais a exposição geopolítica sequer é elencada como variável relevante, com mecanismos de compliance concebidos quase exclusivamente para responder a exigências formais.


A pandemia foi um exemplo claro de como estruturas orientadas exclusivamente à eficiência tendem a colapsar diante de eventos disruptivos. A dependência excessiva de poucos fornecedores, a concentração logística e a ausência de planos efetivos de continuidade de negócios produziram escassez, paralisia industrial e perda abrupta de valor. Não se tratou de insuficiência tecnológica, mas de falhas de governança e de avaliação de risco.


O erro, agora, seria repetir essa experiência sob a crença de que os próximos choques serão mais facilmente administráveis. Guerras, diferentemente de crises sanitárias, redesenham fronteiras econômicas, impõem bloqueios prolongados e convertem ativos tecnológicos em instrumentos diretos de poder estatal. Para empresas de tecnologia, isso significa operar em um ambiente no qual infraestrutura, dados, software e capital humano passam a integrar o campo das disputas geopolíticas.


Organizações capazes de responder com rapidez a situações adversas não o fazem por improviso. Essa capacidade resulta de decisões tomadas antes da crise, muitas vezes custosas: diversificação de operações, criação de redundâncias e um trade-off consciente entre a perda de eficiência imediata e o fortalecimento de uma arquitetura antifrágil.

Nesse sentido, a antifragilidade transcende a mera resiliência por não se limitar a absorver o impacto de um choque para retornar ao estado original. Em sistemas antifrágeis, a volatilidade, a incerteza e o estresse são convertidos em combustível para o aprimoramento. Para organizações de tecnologia, isso significa estruturar operações que não apenas sobrevivam a crises, mas que extraiam delas aprendizados, oportunidades de reposicionamento e vantagens competitivas. Ou seja, a governança que permite decisões ágeis é aquela que já transformou risco em informação estratégica, e não aquela que tenta interpretar a realidade quando ela já se impôs.


Sob essa perspectiva, o setor de tecnologia ocupa uma posição particularmente sensível. A digitalização não é neutra. Plataformas digitais, infraestruturas de nuvem, sistemas de inteligência artificial e redes de comunicação tornaram-se elementos centrais da soberania nacional. À medida que tensões se intensificam, o fornecimento desses serviços deixa de ser uma relação estritamente comercial e assume contornos claramente políticos.

Esse movimento ajuda a compreender por que mercados podem se fechar de forma súbita, serviços digitais passam a ser restringidos e empresas se veem pressionadas a assumir posicionamentos.


Globalmente, os sinais dessa dinâmica são cada vez mais evidentes. Os Estados Unidos, que historicamente assumiram uma posição de menor intervenção estatal na economia, passaram a adotar restrições severas à exportação de semicondutores e chips de alta performance para a China, além de iniciativas legislativas voltadas a forçar a venda ou mesmo o banimento de plataformas digitais. O fato de essa mudança ocorrer justamente em uma economia tradicionalmente associada à lógica de mercado evidencia o grau de transformação imposto pela nova dinâmica geopolítica e o reposicionamento da tecnologia como ativo estratégico sob controle estatal.


É nesse ponto que o Brasil surge como um ator singular. Ao longo de décadas, o país construiu uma reputação associada ao diálogo e à cooperação internacional, o que poderia posicioná-lo como espaço de articulação e estabilidade institucional em um mundo cada vez mais fragmentado. Ao mesmo tempo, episódios recentes envolvendo a suspensão de plataformas globais por descumprimento de ordens judiciais revelam que o Brasil também participa, ainda que sob outra lógica, do movimento transnacional de maior ingerência estatal sobre o setor de tecnologia.


Apesar desse capital diplomático, ele ainda não se converteu plenamente em atratividade tecnológica. Barreiras estruturais, insegurança regulatória, dificuldades na formação e retenção de talentos e uma burocracia pouco compatível com a dinâmica do setor reduzem a capacidade do país de atrair empresas e cérebros estratégicos.


Isso ganha relevância diante da perspectiva de conflitos prolongados. Países que oferecem previsibilidade institucional, segurança jurídica e infraestrutura confiável tendem a se tornar refúgios operacionais em períodos de instabilidade. Os demais permanecem à margem, como receptores de decisões tomadas em outros centros de poder.


Para as empresas que atuam no Brasil, esse contexto impõe uma responsabilidade adicional. É necessário compreender como decisões globais impactam operações locais e como o isolamento de mercados pode afetar cadeias de valor que parecem, à primeira vista, distantes.


A pandemia demonstrou que rupturas sistêmicas raramente respeitam fronteiras setoriais. Um problema logístico localizado rapidamente se converte em desprovimento generalizado. Conflitos armados produzem efeitos semelhantes, porém mais duradouros: interrupção de rotas comerciais, bloqueio de serviços digitais e restrições financeiras. Quem não antecipa esses cenários reage quando as alternativas já são limitadas.


Dessa forma, a gestão de risco cumpre papel decisivo: permitir que vulnerabilidades sejam identificadas antes que se tornem irreversíveis. Isso envolve mapear dependências tecnológicas, testar a perda de fornecedores estratégicos, avaliar impactos regulatórios e estruturar planos de contingência e de continuidade de negócios que não dependam de decisões emergenciais.


O mundo não caminha, no curto prazo, para a estabilidade. Conflitos anunciados, disputas tecnológicas e fragmentação econômica compõem o pano de fundo da próxima década.

Para o Brasil, o desafio é transformar sua tradição de diálogo em uma estratégia concreta que impulsione a inovação e a tecnologia. Isso exige previsibilidade regulatória, segurança jurídica e políticas capazes de atrair e reter talentos em um quadro de competição global intensificada.


Para as empresas de tecnologia, o caminho é igualmente claro: incorporar a gestão de risco ao centro da estratégia, como instrumento permanente para identificar exposições, testar limites operacionais e antecipar cenários de crises globalizadas.


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